Noite de Chuva

Celso Martins

 

 

                        O temporal desabou furioso sobre a cidade. A chuvarada foi tão intensa que para logo inundou as ruas de vários bairros, enquanto trovões estrondavam surdos dentro da noite rasgada pelos relâmpagos atemorizantes. Como acontece nessas ocasiões, a energia elétrica faltou e as casas se mergulharam na escuridão mais profunda.

 

                        – Você vai ao Centro hoje, pai? – indagou a menina de sete anos.

 

                        O pai, senhor de meia-idade, alguns cabelos brancos, fisionomia um tanto cansada, funcionário municipal que freqüentava, como simples assistente, há anos, determinada Casa Espírita, dirigiu o olhar para a esposa, com quem jantava à luz de um tosco lampião, aceso naquela emergência, como que a pedir-lhe a melhor resposta também. E antes que ele mesmo à filha satisfizesse, a mulher tomou a palavra e explicou calmamente:

 

                        – Ora, meu anjo, é claro que o papai vai ao Centro hoje, sim… Acaso ele deixaria de ir ao trabalho pelo simples fato de cair uma chuva mais forte?

 

                        Animado com o apoio da esposa, levantou-se da mesa, preparou-se ligeiro e, depois de beijar a companheira e a menina, enfrentou a fúria da borrasca. Como era perto, seguiu a pé. Não teria dinheiro para táxi nem desejaria ficar esperando por um ônibus que, decerto, custaria muito a passar. E na caminhada, protegido por uma capa plástica e um guarda-chuva meio roto, ficou a pensar de si para consigo: Puxa! Como sou teimoso! Bem que poderia ficar em casa e ir até dormir mais cedo. Amanhã será domingo e, caso a chuva cesse, irei a um piquenique com a minha turma. Recolher-me ao leito mais cedo seria o melhor que poderia fazer. Tenho andado tão cansado ultimamente. Umas dores nas costas.  Deve ser coisa da coluna. Ou da idade mesmo. Sei lá. Mas, não. Vou sim. Naturalmente irá pouca gente e a sessão vai acabar logo.

 

                        E foi, embora não deixasse de existir, lá no fundo do coração, o secreto desejo de ficar em casa, sob a alegação fácil do mau tempo.

 

                        Foi e, de fato, havia reduzidíssimo número de assistentes materiais, o que em absoluto não se repetia do ponto de vista espiritual. A Casa estava literalmente cheia. Iluminada à luz de fumacenta lamparina, aquela Casa Espírita agasalhava elevado número de entidades sofredoras que eram beneficiadas com o produto amoroso da sessão realizada por um pugilo de homens encarnados com o pensamento voltado para o Bem, ali tão belamente representado pelos mensageiros de Jesus, dando a todos os seus eflúvios de revitalizante bem-estar.

 

                        Tendo regressado, aquele homem adormeceu alegre, no convívio da abnegada esposa e da filha querida, num lar tão pobre de bens materiais mas rico, riquíssimo de paz e de alegria, o maior tesouro a que podemos aspirar aqui na Terra, onde ainda há tanta dor e tanto ranger de dentes.

 

                        O domingo surgiu, então, radiante. O Sol brilhava altaneiro, esparramando por todas as partes as suas bênçãos de claridade e vida. E aquele modesto servidor do Município pôde fazer descontraído piquenique com a reduzida família num dos bosques pelos arredores da cidade, cuja atmosfera fora fartamente lavada pela chuva da noite anterior.

 

                        Mal sabia ele, no entanto, que a seu lado, na véspera, se grudara um Espírito inferior que desejava prejudicá-lo seriamente. Iria fazer tudo para que ocorresse algum incidente desagradável durante o convescote programado, pois ele não se conformava de modo algum em ver a alegria alheia. E este companheiro sofredor foi esclarecido na referida sessão e afastado daquele freqüentador anônimo de um Centro Espírita.

 

(“Contando Histórias”, por Celso Martins e outros. Gráfica e Editora do LAR / ABC do Interior- Capivari – SP).

 

***

 

Para ler a série completa de Histórias Espíritas, por favor clique aqui. Para ler todos os artigos do blog, por favor clique  aqui.

Anúncios